quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Princípios Estéticos da Editora Subterrânea

Manifesto da Subterrânea

Por
João Pereira de Matos


§1. Subterrânea? Subcutânea? Para além do consabido jogo com o conceito essencial de underground (e, em português, de contra-cultura) a reacção visceral contra a mercantilização da literatura, a dejecção de um entretenimento formulaico-vazio.
Eis a primeira directiva: a procura de projecção dos mais altos ideais do logos poético, não só se repristinando os valores já conhecidos como na inevitável aposta naqueles que, sendo emergentes, não encontraram lugar no panorama editorial. Assim também a proximidade com a Academia: valorização do rigor que, em geral, a produção científica contém mas que por comummente ser considerada tediosa é, muitas vezes, arredada da publicação...
Quer-se, enfim, uma editora sem concessões.
E quanto aos aspectos económicos? Esses só podem remontar à etimologia de «economia», ie, da organização da casa e esse é o valor essencial: que esta seja uma casa (um lar) para todos aqueles que tenham as letras debaixo da pele... 

§2. A seita da Cultura tem uma pulsão prosélita como outra seita qualquer. Vê o presente como lugar de ameaça e de oportunidade para espalhar a sua fé. Mas que crença é essa? É muito simples: que o humano só se cumpre pelo pensamento e, assim, tudo o que o desenvolva – das condições racionais da ciência às declinações emotivas da poesia – nos planos pessoal e colectivo, contribui para que se devenha mais plenamente aquilo que se é já. É uma concepção dinâmica: a virtualidade potencial necessita de uma prática para que se actualize, terminus ad quem da disseminação do saber que foi, desde sempre, o benévolo correlato do amor aos livros. Sim a bibliomania como ars amatoria é o corolário lógico da exigência autoral de falar e ser ouvido.

§3. Da tabuinha ao rolo de papiro, ao fólio e velino, Gutenberg e a desmaterialização de tudo. Os repositórios da palavra escrita são a cifra do conhecimento. Do que seja e ainda se não encontrou modo mais justo. Nem só a imagem nem o som superam o que está escrito e a interconexão dessas linguagens não logrou, ainda, talvez uma maturidade cujos signos possam almejar a auto-suficiência e uma autonomia. A virtualização das coisas significa, assim, a biblioteca infinita e só pode haver regozijo nessa proliferação. Uma época de ouro de disponibilidade radical nunca sonhada nem aquando do apogeu da Biblioteca de Alexandria.

§4. E disso decorre a noção política do livro. Vivificando o pensamento de esquerda numa transgressão da ortodoxia das relações de produção: a igualdade pelo conhecimento, pelo livre acesso ao conhecimento, é a pedra-de-toque do melhoramento humano. Por isso repugna não só toda a forma de censura como toda a circunscrição de acesso. Neste ponto talvez revitalizando o credo Iluminista. Aquilo que dele é combate contra o obscurantismo.

§5. E, hoje, suprema ironia, o obscurantismo consubstancia-se no sobre excesso, no hipertélico da informação que é o pan-óptico de ressonância orweliana.

§6. Nem espante que assim seja: a luta pelo domínio da informação presupõe um aspecto negativo de restrição de acesso e um positivo de proliferação securitista dos dados como forma de controlo. Um controlo ex ante facto pois toda a transgressão potencial pressupõe uma reincidência e todo o cidadão é potencial transgressor.

§7. Isto é fundamental porque a noção de contracultura é cada vez mais um combate no mesmo plano do que aquele dos mecanismos de controlo-repressivos, através da valorização qualitativa de uma noção englobante e humanizada de Cultura.

§8. É, por isso, um combate indirecto. É pela força do exemplo da consubstanciação em livro de um ideário Culturalista que se pode demonstrar que o conhecimento pode contribuir para melhorar a vida e impedir que o uso policiário-panóptico da informação origine mais uma laboriosa distopia.

§9. Tal ideal, ambicioso, pretende inclusivamente fazer tabula rasa da sobredeterminação capitalista contemporânea da  arte que como doença malsã infecta e condiciona (quase) toda a sua produção. Não importa, por conseguinte, o lucro. Importa só escrever e divulgar e partilhar numa rede de amizade e afecto.

§10. Por fim, um agradecimento à Ana Marta Almeida pelos seus conselhos preciosos, à Fernanda Frazão que tão bem sabe ensinar a arte de fazer livros e ao Nuno Ribeiro, à Cláudia Souza e ao Pedro Farinha Gomes pelo seu entusiasmo, qualidade e rigor científicos.
São estas as pessoas estruturantes do projecto, sem as quais a Subterrânea, seguramente, se afundaria nas profundezas do olvido.

João Pereira de Matos
Lisboa, 4 de Dezembro de 2014